domingo, 14 de junho de 2015

Ela dorme, enquanto ela acorda

“Um dia eu acordei e senti que estava dormindo.
Ou estava dormindo e senti que acordei.
Ou então estava sonhando que estava acordado.
Mas eu estava dormindo.
De repente eu estava sonhando acordado,
Querendo estar dormindo.
De repente eu estava sonhando que estava dormindo,
em que eu estava acordado me preparando para dormir
e ter bons sonhos.
Daí acordei e fiquei sonhando de que um dia só ficaria dormindo”.

Júnior




    Hoje ela está cansada, e não é uma exaustão que pessoas comuns sentem, posso lhe garantir, o problema é que ela só pensa em escrever. Apesar de estar presente na sala de reuniões, só consegue pensar na folha de papel em branco que busca palavras novas, com destino já definido. E não é um destino qualquer.

    Estou tão cansada que escrevi hoje ela estou cansada, agora apaguei. É que eu e ela somos a mesma pessoa, somos? Ainda não me apresentei, começo por ela ou por mim? Se fosse me descrever no atual momento diria que mais do que tudo sou filha, irmã, neta e amiga. A profissional ficou presa no meio do caminho. Ela eu descrevi assim:

   Menina, 23 anos. Fala pouco. Nariz grande. Problemas na coluna. Todos eles. Prefere trabalhar, ao invés de ter férias. No verão prefere serra, ao invés de praia. Nervosa e calma, se é que isso é possível. Gosta mais de meninas, do que de meninos. Prefere tomar injeção, do que ter que tomar algum remédio líquido. Doença crônica rara, com outras doenças ainda mais raras no pacote.

   Só que isso foi bem antes de tudo isso. Com certeza o rara segue sendo um bom adjetivo.

      E tu, o que gosta, o que não gosta? Está cansado do que? Está com fome de que? Odeia algo? Eu não sou de usar a essa palavra, porém, tem duas perguntas em especiais que me incomodam bastante: “tudo bem contigo?”. Ninguém quer ouvir não, não está tudo bem, isto caso elas parem para escutar, porque muitas vezes perguntam e antes da resposta já saem caminhando. Eu sei, eu sei, essa expressão é como uma continuação do oi, elas caminham juntas. Porém tem outra que me deixou particularmente reflexiva hoje: “é certo?” (contexto, um possível café com uma amiga), não, nada é certo, não no momento atual.  Aí, quanto drama! Sei que tu entenderia, porque um dia eu li no teu blog.

     “E me lembro que dei a resposta pro mesmo amigo que fez essas perguntas: instinto de sobrevivência. É bom estar vivo, nem que seja nas piores condições, principalmente sabendo que há esperança, e que as mudanças podem vir logo. E vieram, eu estou aí. Aguentei e consegui, e, por incrível que pareça, foi mais fácil que pensei e faria tudo de novo. Sou, de novo, filho, irmão, primo, neto, sobrinho, namorado, amigo, colega, conhecido e até desconhecido, mas que o meu exemplo sirva para que se mostre a vida de um outro ângulo, que ela sempre pode ser difícil”.

    Acho que tu ia achar difícil minha condição de ostomizada, eu desde 2014 estou literalmente cagando e andando. E uma vez tu admitiu: “Mas, confesso, viro um maricas quando tenho problemas gastrointestinais. Eu queria morrer! Eu confesso! Fiquei fraco, não conseguia levantar da cama, estava mais pro morto do que vivo”. Já eu não consigo imaginar como seria respirar menos.

    Acho que não sou só eu que exagero um pouco às vezes, fazer o que se gostamos de história? O estranho me fascina de algum modo que eu também não sei explicar. É sentimento, não tem explicação. Me apego a uma frase que li esses tempos do Nelson Rodrigues, que diz que “O personagem vive a vida que devia ser nossa, que recusamos”. Tendo as minhas limitações físicas, de repente a literatura é uma forma de sentir algo perigoso, sentir uma sensação de quem está fazendo um esporte radical, o que na teoria literária chamamos de “catarse”. Temos uma vantagem, conseguimos fazer catarses irônicas da nossa própria história. Hoje não escrevi sobre ela e senti que vivi um pouco menos, quando na verdade foi ela que deixou de continuar nascendo. Mas, amanhã é um novo dia, vou dormir, vai que ela acorda!

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