Acho que sonhei contigo,
lembro direitinho de ver uma mensagem tua, mas não encontro em lugar nenhum.
Foi assim que ela pensou em começar o primeiro conto, em uma época onde os
diálogos são todos urgentes, por que não utilizar isso como um tema, uma união
que ligaria duas histórias, duas pessoas que estão vivendo um mesmo momento,
mas estão em quartos diferentes, ainda não sei exatamente se estão no mesmo
hospital, no mesmo corredor, nem sei ao certo se seria a mesma cidade, mas o
que liga essas duas pessoas? O momento. Como essas mensagens chegariam? Através
de algo ou de alguém? E esse início seria o começo ou o final da história? Ela
pode ter sonhado com ele, sem nunca o ter visto e por isso a mensagem não é
encontrada, ou ela está tão preocupada em encontrar a mensagem certa, que acaba
não visualizando as antigas e resolve então escrever novas, em busca de
possíveis respostas.
Resolveu
levantar e abrir a janela do quarto. Sentiu como se nunca tivesse saído daquele
quarto, apesar de terem sidos tantos quartos diferentes. Lembrou e riu para si
mesma pensando: “Ninguém é apaixonada por
hospitais, mas aqueles espaços e instalações frios e funcionais eram parte da
sua vida. Sentia-se segura lá.” Porém, agora ela estava em casa. Da
janela vê-se o jardim, da casa construída pelo avô, a casa já não era
considerada exatamente um lar e ela por um momento quis que as coisas voltassem
a ser como eram antes, mas nada seria como antes, começando pela morte do avô. Ela
não tinha medo da morte.
Só
o que restava era esperar o tratamento fazer efeito, o fim estava próximo. Ou o
começo? Não lamentava que a vida tivesse lhe tirado dias produtivos. As
experiências e contatos foram de certa forma ainda mais produtivos. Afinal “a
vida não foi, nem será, a vida é.” Estava frágil, necessitava de atenção 24
horas por dia. Mesmo assim, a auto-confiança era algo que considerava normal
para alguém de 25 anos. Não seria uma vida inútil, contaria as histórias de
superação para si e para os outros.
Porém,
o livro iniciado cinco anos atrás, já podia ser considerado concluído, se fosse
esperar “o fim”, literalmente, outra pessoa teria que concluí-lo. Sempre disse
que morreria jovem, até aquele dia teve certeza. A hemorragia, o sono, os
pedidos para não dormir. Indagou então se tudo acabaria assim, dali a algumas
horas, se a lavagem intestinal que estavam fazendo não seria à toa, se
realmente cessaria a hemorragia, dormiu três dias depois disso, mas acordou, a
morte é um sono onde a gente segue dormindo, não foi dessa vez, talvez
realmente tivesse que terminar o que começou.
Antes
disso acordou com mais conexões do que a cidade de São Paulo. Eram fios para
todos os lados, mas qual foi a primeira coisa que fez? Colocou a mão na
barriga, sentiu algo que ainda não sabia definir bem de qual material era feito
e teve certeza do que já sabia antes: carregaria um saco na barriga por toda
vida, fosse ela durar mais alguns meses ou anos. Décadas talvez?
Nessa
época não tinha tempo para pensar em relacionamentos, mas mais cedo ou mais
tarde a gente acaba pensando e o medo mais superficial foi o primeiro deles,
ninguém vai querer alguém que use um acessório desses. A técnica de enfermagem
entrou no quarto da CTI e só pra ter certeza ela perguntou o óbvio, assim que
recebeu a confirmação, se conformou.
Alguns
tantos meses depois, desejou o que nunca havia desejado antes. Um cúmplice, um
amor, uma paixão, um relacionamento. Chorou por alguns dias, porque não sabia
muito bem como seria viver no mundo real, sempre foi a escritora da própria
história, como seria incluir um personagem nela? Sempre inventava desculpas, se
sentia muito mais a vontade na ficção, conseguiria ela viver como pessoas
“normais”? Sentia o peso opressivo da realidade.
Foi
então que veio o novo diagnóstico. Novas idéias. Um novo livro, que também
precisaria ser terminado. Sobre personagens, ela tem muito mais domínio sobre
ela, ainda não conheceu ele, mas tem certeza que seria uma ótima troca, uma
carta pela outra, um bilhete.
Foi
então que o destino apresentou o vizinho de quarto, em formato de conto,
chamarei ele de destino, personagem novo, não estava previsto, não darei nenhum
outro nome no momento, acaso talvez? Ele pode ser o mediador entre os dois
personagens, e tudo isso pode ser o começo de muito, ou de algo, o que nesse
caso, já é bastante coisa.
Agora
preciso dormir, porque amanhã tenho consulta, e essa parte é real.
Todo
resto também.

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