sábado, 13 de junho de 2015

Sobre Personagens

             


             Acho que sonhei contigo, lembro direitinho de ver uma mensagem tua, mas não encontro em lugar nenhum. Foi assim que ela pensou em começar o primeiro conto, em uma época onde os diálogos são todos urgentes, por que não utilizar isso como um tema, uma união que ligaria duas histórias, duas pessoas que estão vivendo um mesmo momento, mas estão em quartos diferentes, ainda não sei exatamente se estão no mesmo hospital, no mesmo corredor, nem sei ao certo se seria a mesma cidade, mas o que liga essas duas pessoas? O momento. Como essas mensagens chegariam? Através de algo ou de alguém? E esse início seria o começo ou o final da história? Ela pode ter sonhado com ele, sem nunca o ter visto e por isso a mensagem não é encontrada, ou ela está tão preocupada em encontrar a mensagem certa, que acaba não visualizando as antigas e resolve então escrever novas, em busca de possíveis respostas.

Resolveu levantar e abrir a janela do quarto. Sentiu como se nunca tivesse saído daquele quarto, apesar de terem sidos tantos quartos diferentes. Lembrou e riu para si mesma pensando: “Ninguém é apaixonada por hospitais, mas aqueles espaços e instalações frios e funcionais eram parte da sua vida. Sentia-se segura lá.” Porém, agora ela estava em casa. Da janela vê-se o jardim, da casa construída pelo avô, a casa já não era considerada exatamente um lar e ela por um momento quis que as coisas voltassem a ser como eram antes, mas nada seria como antes, começando pela morte do avô. Ela não tinha medo da morte.

Só o que restava era esperar o tratamento fazer efeito, o fim estava próximo. Ou o começo? Não lamentava que a vida tivesse lhe tirado dias produtivos. As experiências e contatos foram de certa forma ainda mais produtivos. Afinal “a vida não foi, nem será, a vida é.” Estava frágil, necessitava de atenção 24 horas por dia. Mesmo assim, a auto-confiança era algo que considerava normal para alguém de 25 anos. Não seria uma vida inútil, contaria as histórias de superação para si e para os outros.

Porém, o livro iniciado cinco anos atrás, já podia ser considerado concluído, se fosse esperar “o fim”, literalmente, outra pessoa teria que concluí-lo. Sempre disse que morreria jovem, até aquele dia teve certeza. A hemorragia, o sono, os pedidos para não dormir. Indagou então se tudo acabaria assim, dali a algumas horas, se a lavagem intestinal que estavam fazendo não seria à toa, se realmente cessaria a hemorragia, dormiu três dias depois disso, mas acordou, a morte é um sono onde a gente segue dormindo, não foi dessa vez, talvez realmente tivesse que terminar o que começou.

Antes disso acordou com mais conexões do que a cidade de São Paulo. Eram fios para todos os lados, mas qual foi a primeira coisa que fez? Colocou a mão na barriga, sentiu algo que ainda não sabia definir bem de qual material era feito e teve certeza do que já sabia antes: carregaria um saco na barriga por toda vida, fosse ela durar mais alguns meses ou anos. Décadas talvez?

Nessa época não tinha tempo para pensar em relacionamentos, mas mais cedo ou mais tarde a gente acaba pensando e o medo mais superficial foi o primeiro deles, ninguém vai querer alguém que use um acessório desses. A técnica de enfermagem entrou no quarto da CTI e só pra ter certeza ela perguntou o óbvio, assim que recebeu a confirmação, se conformou.

Alguns tantos meses depois, desejou o que nunca havia desejado antes. Um cúmplice, um amor, uma paixão, um relacionamento. Chorou por alguns dias, porque não sabia muito bem como seria viver no mundo real, sempre foi a escritora da própria história, como seria incluir um personagem nela? Sempre inventava desculpas, se sentia muito mais a vontade na ficção, conseguiria ela viver como pessoas “normais”? Sentia o peso opressivo da realidade.

Foi então que veio o novo diagnóstico. Novas idéias. Um novo livro, que também precisaria ser terminado. Sobre personagens, ela tem muito mais domínio sobre ela, ainda não conheceu ele, mas tem certeza que seria uma ótima troca, uma carta pela outra, um bilhete.

Foi então que o destino apresentou o vizinho de quarto, em formato de conto, chamarei ele de destino, personagem novo, não estava previsto, não darei nenhum outro nome no momento, acaso talvez? Ele pode ser o mediador entre os dois personagens, e tudo isso pode ser o começo de muito, ou de algo, o que nesse caso, já é bastante coisa.

Agora preciso dormir, porque amanhã tenho consulta, e essa parte é real.

Todo resto também.

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